Infância Leonina

Atualizado: Jan 7

Texto escrito por Patricia Cassique - ESCRITA MEDITATIVA

Era uma criança como outra qualquer; porém, com uma peculiaridade, uma personalidade não muito fácil de lidar. Carregando a sua história já pesada desde cedo, aprendeu a perspetivar a vida de forma a disputar o seu espaço e o seu lugar ao sol.


Nos seus devaneios, respirava lado a lado com o seu leão e os seus instintos. Muitas vezes, já não sabia diferenciar as suas personagens internas. O leão impunha-se-lhe com o seu rugido e todos os outros bichos se calavam e lhe davam todo o poder.


Na disputa territorial e presencial que se seguia, era difícil lidar com os seus próprios instintos sem ter consciência da necessidade daquele comportamento insano e animal. A resposta de uma autoproteção deveras intensa era uma sensação emergencial. Se para esta criança já era difícil lidar com os seus impulsos, imagine-se o que seria para as outras pessoas.


Tudo corria como uma bola de neve. À medida que o seu comportamento agressivo de defesa emergia para o ambiente, aumentava a ocorrência de situações para que essa vibração de revolta e de dor se perpetuasse, criando e recriando a mesma história.


É curioso verificar a força de representação deste instinto leonino, que se apresenta a vários níveis de existência desta criança.


Ao nível físico, a luta pela permanência no mundo consistia em alimentar-se com voracidade e compulsão em busca de acolhimento nas sua mais profundas entranhas. Numa condição visceral, havia um único reconhecimento de Ser Humano. Não bastava comer de forma rápida, pois uma exigência desse são leão era a busca do que ele mais entendia...a dor.


Assim, para esta criança comer compulsivamente era a única forma de reconhecer a sua presença. Gerava-se, então, uma distorção da realidade, pois este comportamento perpetuava a sua desconexão em relação a si própria.


A ausência da apreciação do gosto, textura e cor na alimentação era sempre presente; deste modo, o bolo alimentar era engolido à pressa e quase sempre inteiro, finalizando em sensação de peso, pressionando o saco estomacal e gerando dor e pressão. Dessa maneira, o seu estômago ia-se distendendo, criando espaço e gerando a sua própria fonte de dor e culpa por sentir-se mal.


Aparentemente, o nível de energia da criança era elevado, bastando observar tamanha agressividade e intensidade. Essa fricção interna era representada como uma agitação que vibrava por todo seu corpo; uma inquietação pulsante em redor do seu coração, mas que se espalhava a toda a volta deste. A única coisa que lhe restava era ir para o movimento. Um movimento solitário e incompreendido por qualquer outro ser. O autoritarismo do leão não aceitava regras ou limitações, o que aprisionava essa criança no isolamento interno. É claro que o felino não tinha o controlo do que se aproximava, mas a sua agressividade responsabilizava-se por manter tudo à distância desta criança.


Brincar debaixo da escada era o seu refúgio. Ali havia brinquedos inteiros, quebrados e partidos, mas, dentro deste mundo, havia tudo para o imaginário. Não existia qualquer mundo paralelo, somente a prisão em si mesma. As emoções e as suas criações transformavam-se em manifestação, complementando um mundo onde o fluir de criações imperava.


A sua mãe, por vezes, era a sua âncora incompreendida, pois com frequência entrava na disputa com o leão, enfrentando e desafiando esta criança para a sua presença e realidade. Talvez, se essa mãe fosse doce, este leão já houvesse vencido e reinado sobre o mundo mental desta criança.


No meio disso tudo, eram criadas histórias para culpar o outro, pois a fera ainda persistia em ficar no anonimato, atuando como um fantasma. Em todo esse processo, a dor se apresentava dilacerando essa criança e não ficando presente nesse corpo; a mente alienava-a e transportava-a para outro lugar até que a sonolência se aproximava e se incumbia de fazer o tempo passar, adormecendo todos os seus sentidos.


Patricia Cassique

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